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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sofrer para correr ou correr para sofrer?


Não sou grande adepto da expressão força de vontade, sobretudo quando aplicada a alguém como adjectivo abrangente, por exemplo “ele é uma pessoa com muita força de vontade...”. Como também não dou grande valor ao uso do termo preguiçoso, muito popular em Portugal (ainda que geralmente usado com mais carinho do que em outras culturas, mais investidas nas vantagens da “produtividade”). Aliás, apostava que na Maratona de Madrid, na qual participei no passado Domingo, encontraria muitas centenas de auto-denominados “preguiçosos”. Tal como encontraria outras tantas pessoas que nunca se definiriam como possuindo “muita força de vontade”. É verdade que, nos dias que correm, este último (suposto) atributo pessoal, o da força de vontade, é mais valorizado socialmente do que ser conhecido como “o mais preguiçoso da turma”. Mas tenho para mim que ambas as expressões não prestam grande serviço à realidade, neste caso à verdade do que nos leva a agir (ou não) em determinada direcção, de forma mais ou menos persistente. Razões para esta minha opinião estão afloradas noutro sítio (diga-se, de forma muito “preguiçosa”). Em minha defesa neste momento digo apenas que conheço muitos preguiçosos... cheios de força de vontade!


Mas veio-me este tema à mente ao reflectir em mais uma Maratona terminada, mais uma cidade percorrida a custo durante 42km, em direcção a uma meta. E mais uma vez dei por mim a pensar no custo. Vim no avião de Madrid a pensar nele. E na meta. E no que caminho que separa os dois... Desta vez, o custo foi algo elevado e poucas metas foram atingidas. A saber, a meta principal era fazer uma corrida mais tranquila que o habitual, mais lenta e sem a pressão de “correr depressa”. Mas por outro lado mais saboreada e mais vivida, ao contrário de outras provas em que a concentração na parte competitiva foi mais elevada. Fui já gozado por ter passado pelo Vaticano, durante a Maratona de Roma, sem perceber onde estava! Desta vez queria estar mais atento à minha volta, mais disponível, mais bem disposto e menos concentrado.


Não aconteceria assim. Apenas a meta da “corrida mais lenta” foi cumprida.



Estava frio à partida (arrisco menos de 10ºC), tendo a temperatura baixado muito durante a noite anterior. O corpo estranhou. Depois choveu durante o 1º terço da prova, o que não combina nada bem com o frio e a pouca roupa que levamos. Depois havia as subidas. E mais subidas. E mais uma... Se em Berlim me pareceu que a prova “só tinha” descidas (mesmo tendo terminado no mesmo ponto da partida!), desta vez foi ao contrário. Parecia sempre a subir, o maldito do percurso! A Maratona de Boston, mesmo com a “heartbreak hill”, é um passeio comparado com Madrid. Ou então eram as pernas que estavam cansadas, como têm estado frequentemente nos últimos meses. Tudo isto junto resultou assim: 1 hora com frio e a fugir da chuva, correndo sem grande prazer, mais 30 minutos a tentar perceber como estava o físico e o que me esperava, para rapidamente perceber que iria passar os últimos 90 e tal minutos “a custo”. E assim foi. Felizmente havia a meta, cruzada 3 horas e 9 minutos depois da partida (e cruzada lado a lado com o fantástico Luís, uma “máquina aeróbica” que quase não precisa de treinar para fazer 3:09!). Mas que meta é esta realmente, pergunto-me muitas vezes... Ainda não tenho uma boa resposta.



Uma memória que perdura de Madrid é a de sofrer bastante durante uns bons 80 minutos, até ao fim. Não é a primeira vez que acontece. Aliás, diria que aconteceu em todas as Maratonas que corri. Isto é, a ideia de correr uma maratona “tranquilamente” ainda não ganhou forma nem expressão na minha memória associada a este evento – tanto quanto sei, não é possível! Gostava de conseguir descrever o que se sente nestes momentos de dor e sofrimento, mas é difícil. O melhor que consigo é imaginar um batalhão de pequenos seres espalhados pelo interior das pernas, equipados com arpões, ferros quentes e outros instrumentos de tortura que, a cada passo, espetam os arpões e demais apetrechos nos diversos receptores nervosos, provocando dor. A cada passo a mensagem chega clara ao cérebro: “pára, pára, pára!”, invadindo o espaço mental de forma progressiva até quase não se ouvir mais nada. E começa então a luta entre o cérebro que quer e o corpo que não quer mas executa. Diz-me o saber científico que a sensação psicológica de cansaço, mesmo que forte, se antecipa sempre no tempo à fadiga física realmente incapacitante. Parece que é um sistema primário de protecção do corpo humano. O que aliás ajuda a explicar aquela sensação de que nossos limites reais estão sempre mais além. No meu caso, este conhecimento ajuda a cérebro nesta batalha sem tréguas, como se fosse conhecedor do secreto plano de batalha do “inimigo” corpo! Em Maratonas, apenas uma vez o meu corpo falou alto demais para ser ignorado. Uma paragem de alguns minutos em Boston antes de uma ponte ridiculamente pequena mas cuja subida me parecia o Denali. Curiosamente, a paragem ficou gravada no filme da prova e é uma vergonha quando o mostro aos amigos...! “O quê? Paraste por causa... daquilo?!” (argumentar com pequenos seres nas pernas, e arpões e tal não costuma ajudar muito em minha defesa...). “Sim, o corpo não aguentava mais...”, é o melhor que consigo, cobardemente.


Mas tudo isto parece realmente abonar em favor do poder da vontade sobre o físico, da mente sobre o corpo. Até certo ponto será assim, fruto da evolução de novos “sistemas de auto-regulação” superiores, racionais. Quem manda em mim, afinal?! Alguns terão esta capacidade mais desenvolvida? Talvez. Mais força de vontade, mais auto-motivação? Pode ser. Maior capacidade de suportar a dor, de adiar a gratificação, de se auto-controlarem e persistirem na presença de dificuldades? Quem sabe... Para mim, grande parte da resposta está no valor atribuído por cada um às metas que estabelece. E a outra parte do mistério, a mais saborosa, reside no significado do processo pelo qual se passa. Do caminho entre a partida e a meta. Há quem diga até que a verdadeira meta é o caminho! Interessa-me por isso reflectir sobre esse processo, esse caminho, em particular a atracção da dor (que a Maratona sempre provoca). O passar a privação para alcançar “a meta”. O que significa este ritual para tanta gente?



Por certo pode significar sentir o reconhecimento dos amigos, a cada Maratona terminada (e a sua história contada tantas vezes). Ou o prazer da actividade física ao ar livre em comunhão com outros. Ou o hábito do treino, a que muitos se acostumaram cedo na vida, por vezes em outros desportos exigentes. Ou o incentivo forte de fazer o exercício físico perfeito para não ganhar peso (sabemos que resulta). Outros motivos existem, certamente. Mas haverá algo mais primário gravado no inconsciente colectivo ou na tela evolutiva na nossa espécie? Uma razão mais profunda. Uma atracção primária para ultrapassar um calvário (subir a montanha, atravessar o deserto, cruzar o oceano)... por sofrer apenas para atingir o outro lado? Sofrer, neste caso correr, apenas “por sofrer”, para saber que se é capaz sem perecer?... Terminando mais forte do que se começou. Mais humilde porque mais próximo dos próprios limites. Com umas cicatrizes a mais, também, mas daquelas que se mostram com orgulho? Pressinto que há aqui algo... São pessoas demais atraídas pelo evento e pela sua magia. Quem sabe?

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Hoje li algo sobre o circo, em que alguém dizia que é um jogo. Mas é real. Como a vida. A Maratona é também apenas um jogo (um desporto, um ritual). Sim, é um jogo real (dói que se farta, tem riscos). Mas é um jogo. E é real. Mas é um jogo...!


A vida pelo contrário, não é nada se não é real. Mas às vezes não parece que é o destino a brincar connosco? Como um joguete... Devemos aceitar que não ditamos as leis do jogo? Que não controlamos o resultado final? Precisaremos de acreditar na ilusão que o jogo é mesmo a sério...?

Talvez seja isso! Na Maratona joga-se a sério. Vai-se para brincar, mas treina-se a sério. Sim, é apenas um jogo. Mas que quando se joga, parece que é mesmo a sério! Vive-se, portanto. Na mais real ilusão.

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Será que conseguir viver a sério e a brincar (ao mesmo tempo) é a melhor forma de viver? É mais difícil do que parece...



Bom, como mostro na imagem (tirada no hotel após a corrida em Madrid), agora é tempo de intervalo nas corridas “a sério”. Já chega, por ora. Em Nova Iorque em Outubro joga-se de novo...

Por isso hoje fui nadar!

E mais tarde fui correr um pouco com o Carlos. Fiel parceiro de batota, mas amigo a sério. Sempre com um sorriso, o Carlos. Mas um amigo, pai, filho e profissional “a sério”. Apetece-me dizer que já não se fazem pessoas assim! Saberá ele algum segredo...?

2 comentários:

Carlos Ferreira disse...

A pergunta “mas porque é que eu preciso de fazer isto?” tem-me perseguido constantemente neste últimos tempos. Cada vez mais tenho a certeza que dificilmente conseguirei me dar uma resposta suficientemente lúcida que me satisfaça. Partilho muitas das reflexões aqui deixadas por ti. Só tenho pena de não a mesma capacidade literária nem a tua lucidez para poder partilhar alguns dos meus intrincados raciocínios que me assolam.
Obrigado pela clarividência.

Pedro Teixeira disse...

Eu também tenho pena de me faltarem outras (muitas) "clarividências" e capacidades... que tu tens para a troca! Obrigado.